Psicologia Analítica

As Duas Personalidades de Jung

Quando estudamos Jung e sua obra, fica claro como as coisas são interligadas, o pensamento gnóstico e paradoxal está sempre presente. Ele faz associações com sua própria trajetória, sempre traz a questão dos opostos, entre outras coisas.

Um fato interessante sobre ele, é que ele reconhecia em si mesmo duas personalidades, praticamente opostas, ligadas cada uma a um tempo diferente.

Segundo Sonu Shamdasani (2009, p. 195):

Jung também tinha a impressão de viver em dois séculos, e sentia uma forte nostalgia pelo século XVIII. Sua sensação de dualidade tomou a forma de duas personalidades alternadas, que cunhou de número 1 e número 2. Personalidade número 1 era o garoto da Basileia, que lia romances, e personalidade número 2 era a que solitariamente perseguia reflexões religiosas, num estado de comunhão com a natureza e com o cosmo. Ela habitava o “mundo de Deus”. Essa personalidade lhe parecia muito real. A personalidade número 1 queria se livrar da melancolia e do isolamento da personalidade número 2. Quando entrava a personalidade número 2, parecia que um espírito há muito tempo morto e ainda perpetuamente presente entrava na sala. A número 2 não tinha um caráter definido; era conectada à história, especialmente com a Idade Média. Para a número 2, a número 1, com seus fracassos e inaptidões, era alguém para se aguentar. Esse jogo permaneceu durante toda a vida de Jung. Do modo como ele as encarava, somos todos assim – uma parte de nós vive no presente e outra está conectada com os séculos.

Então a personalidade número 1 seria a personalidade mais voltada para seu próprio tempo, a época social em que se está vivendo, que se interessa pelos acontecimentos da época, que é mais adaptável às necessidades sociais; uma personalidade com certas restrições, naturais ao caráter humano, com seus defeitos e limitações.

Enquanto a personalidade número 2 estava interessada em outra época, ligada a outro tempo, ligada ao eterno. Essa personalidade era preocupada com a criação, de atitude mais solitária, melancólica.

Essa realidade em que ele vivia internamente trazia conflitos importantes que o levavam à crises e também aprendizados, como, por exemplo, na época em teve que escolher uma profissão. Ao ter que fazer isso, ele sentiu esse conflito interior aumentar; e percebeu que cada uma dessas personalidades desejava caminhos diferentes. A número 1 queria que ele escolhesse algum campo de formação relacionado às ciências, enquanto a numero 2 desejava algo do campo de humanas. Foi então que ele teve dois sonhos:

No primeiro ele estava andando num bosque escuro perto do Reno. Deparou-se com um túmulo e começou a cavá-lo, até descobrir restos de animais pré-históricos. Este sonho despertou nele a vontade de saber mais sobre a natureza. No segundo sonho, ele estava num bosque, e havia riachos. Encontrou então um lago cercado de densa vegetação rasteira. No lago viu uma bela criatura, um enorme radiolário. Após esses sonhos, optou pelas ciências. Para resolver a questão de como ganhar a vida, decidiu estudar medicina. Então teve outro sonho. Estava num lugar desconhecido, coberto de neblina, avançando vagarosamente contra o vento. Ele estava protegendo uma luz de apagar-se. Viu então uma enorme criatura preta amedrontadoramente próxima. Acordou, e percebeu que a figura era a sombra que a luz projetava. Pensou que, no sonho, a número 1 estava ela mesma levando a luz, e que a número 2 seguia como uma sombra. Encarou isso como um sinal de que ele devia seguir com a número 1, e não olhar para trás para o mundo da número 2. (SHAMDASANI, 2009, p 195).

Vemos aqui um exemplo valioso de como ele se relacionava com seus sonhos, levando-os a sério, relacionando-se com eles, como uma continuação da vida desperta, algo intrínseco e poderoso de se dialogar e se integrar. Nesse sonho ele compreendeu que caminho deveria tomar e fez sua decisão, o que o levou à trajetória que conhecemos.

Referência bibliográfica

Shamdasani, Sonu. Introdução para O Livro Vermelho: Liber Novus. Trad. Gentil A. Titton e Gustavo Barcelos. Petrópolis: Vozes, 2009.

Texto: Alessandra M. Esquillaro – CRP 06/973472800

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