Psicologia Analítica

RELACIONAMENTOS AFETIVOS – O CÉU E O INFERNO DO SER HUMANO

Desde o reino animal nenhum outro aspecto da afetividade é gerador de emoções e sentimentos tão ambivalentes, construtores e destruidores do equilíbrio individual e coletivo, como os relacionamentos afetivos.

No mundo dos irracionais dois machos se empenham numa luta de vida ou morte pela manutenção de seu território e o direito de acasalar, criando todo tipo de estratégias que nos surpreendem, para conquistar a fêmea ou as fêmeas.

O homem, portador da capacidade cognitiva, elabora variadas estratégias para conquistar a mulher e, em alguns casos, dá vazão os instintos mais primitivos quando não consegue seu objetivo.

Tamanho interesse e dependência de se validar pelo recebimento de afetividade levou o filósofo do século XIX Schopenhauer, conhecido por suas ideias pessimistas em relação ao sentido da vida, a concluir que relacionamentos e desejos só levavam à dor e ao tédio.

Segundo ele a salvação do sofrimento humano, causado pela existência seria a renúncia ao mundo, tornando-se assim verdadeiramente livre.

Schopenhauer vivenciou a relação frustrada de seus pais e construiu sua Filosofia baseada nesta experiência, como uma forma de defesa.

De certa forma é o que acontece com todos nós, criamos sentenças e barreiras para evitar o sofrimento e assim, sem perceber, aumentamos nossa sombra, ou o material reprimido no inconsciente, diminuindo a energia à disposição do ego.

Dessa forma acreditava Schopenhauer que toda manifestação estética em festas e encontros, tinha o único objetivo de conquistar a mulher que, por sua vez, se mostrava receptiva ou não à corte.

Histórias de grandes amores arrebatadores da Mitologia e dos grandes impérios como Tristão e Isolda, Marco Antônio e Cleópatra, entre tantos outros, de certo modo, dão sustentação à Filosofia de Schopenhauer.

Essa dependência total e irrestrita do “objeto” de amor, seja ele material, pessoal ou ideológico, frustra o desenvolvimento da personalidade genuína.

Freud, embora não cita Schopenhauer, tendo este escrito suas ideias filosóficas, cinquenta anos antes daquele, reproduz, em sua Teoria da Libido, a mesma ideia fundamental, no “jogo da vida” entre o sujeito, o objeto desejado e a censura. Censura esta constituída pela cultura e todas as várias condições relacionadas ao “objeto amado”.

A teoria freudiana, embora correta e sempre atual, enquanto perdurar o estágio atual de desenvolvimento da humanidade, não oferece uma saída para impasse gerado entre o sujeito, o objeto do desejo e a censura, pois mesmo que o intento do sujeito seja satisfeito, haverá sempre a dependência do objeto amado, gerando a insegurança no sujeito.

Traduzindo de uma forma bem direta, para Freud, a frustração será sempre a herança que resta ao sujeito.

Como solução clássica Freud propõe o famoso método da “Associação Livre” onde o sujeito, sob tratamento psicanalítico, se compromete a relatar todas suas ideias, sentimentos e emoções que vêm a sua mente de forma honesta e espontânea.

Dessa forma, o material reprimido no inconsciente poderá se tornar consciente, liberando assim a energia “roubada” da personalidade (ego).

É evidente que falta muitas considerações a fazer, mas esse não é o objetivo deste texto.

Dentre as tantas formas de sentimento amoroso descritos e conhecidos, a mais famosa e completa descrição, se é que seja possível descrever um sentimento tão controverso quanto intenso, se destaca o texto da Carta de São Paulo aos Coríntios, capítulo XIII:

“Ainda que eu falasse a língua dos Anjos, se não tivesse amor, nada seria…

Este texto, conhecido por todos, motivo de muitas canções em todo o mundo e em todos os tempos, é de fato, uma referência unânime ao amor, sentimento impossível de ser definido, que proporcionou ao Inglês Henry Drummond a escrever o famoso texto, traduzido e adaptado livremente do sermão original “The Greatest Thing in the World”, por Paulo Coelho, publicado pela Rocco em 1.999. Vale fazer dele um texto de cabeceira.

Em 1911 Jung publicou “Símbolos da Transformação”, obra que só foi definitivamente concluída em 1950 em sua quarta edição.

Neste texto final de mais de setecentas páginas, Jung dá uma nova e ampla visão da energia da vida, chamada por Freud de “libido” e por Wilhelm Reich de “orgone”.

É importante esclarecer que nem Freud, nem Reich considerava a libido e a orgone apenas como energias do impulso sexual, embora muito leigos pensam que Freud só se referia à libido pulsão sexual, isso de certa forma é uma grosseira injustiça à genialidade de Freud.

A publicação de “Símbolos da Transformação”, marca definitivamente o rompimento de Freud com Jung tanto no aspecto científico como nas relações de amizade.

Jung se incomodava com a ideia de Freud de considerar a Teoria do Desenvolvimento Psicossexual como uma ideologia em resposta aos textos exotéricos de Madame Blavastik, “A Doutrina Secreta” e Isis sem véu, difundidos por toda a Europa e influenciando a obra da Medicina Antroposófica de Rudolf Steiner, entre outros.

Após muitas viagens, conhecendo várias culturas, inclusive os Pueblo no México, Jung depara sempre com uma crença comum a respeito da existência de um Ser Sagrado e Poderoso, Criador e Mantenedor de todas as coisas.

Para algumas culturas eram os animais poderosos ou simplesmente os fenômenos naturais.

Essa ideia constante entre povos tão diferentes e tão distantes dá a pista para Jung elaborar a ideia de um núcleo aglutinador e organizador do aparelho psíquico.

Estava dado o primeiro passo para a descoberta da Teoria dos Arquétipos, inconsciente pessoal e coletivo dentre muitas outras descobertas.

Os arquétipos são consciências primordiais que agem a partir do inconsciente das pessoas.

Numa das mais abrangentes definições, Robert A. Johnson, em seu livro “Imaginação Ativa”, Editora Mercúrio, 2003, refeito do título original em 1974: “A Chave do Reino Interior”. Na pag. 11 escreve Johnson:

“O inconsciente é um universo maravilhoso composto de energias invisíveis, forças, formas de inteligência – até personalidades distintas – que não são percebidas, mas que vivem dentro de nós.

Seu domínio é muito maior do que imaginamos, algo com vida própria e completa, toda sua, que corre paralelamente à vida comum do nosso dia-a-dia.

O inconsciente é a fonte secreta de muito que entendemos como sendo nossos pensamentos, nossas emoções e comportamentos.

Influencia-nos de forma poderosa, por não suspeitarmos de sua existência.

Muito poucas são as pessoas que têm consciência da existência do inconsciente nos termos definidos por Robert Johnson, isto porque não basta dominar o conceito de algo para acreditarmos na sua existência, porque não é suficiente acreditar é necessário saber.

Pois, experiência requer envolvimento. Para a maioria das pessoas a descrição do inconsciente de Johnson, soaria como algo louco, desprovido de razão.

Neste caso estão certos, o inconsciente não tem nada a ver com o racional.

Somente o exercício com os sonhos e imaginação ativa disponibilizam as experiências com o inconsciente que deve ser algo pessoal, secreto, pois não fará sentido para outras pessoas.

Por esse motivo, todos os estudos e ensaios que permitiram o desenvolvimento das teorias de Jung, foram descritas e ilustradas no Livro Vermelho, publicado somente quase cinquenta anos após sua morte.

A descoberta e a elaboração da Teoria dos Arquétipos, nos fornece outra visão do aparelho psíquico, mudando completamente a visão da dinâmica dos sentimentos e emoções, proporcionando uma visão muito mais abrangente e profunda, assim como também oferece novas soluções para a problemática dos relacionamentos afetivos.

Não havendo mais espaço para discorrermos sobre a influência dos arquétipos nas relações afetivas, proponho continuarmos no próximo número.

Texto: Osmar Santos

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